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9
dez
2011
 
Notícia do portal iG: Fabricante do Johnnie Walker rejeita primo pobre
 
Postado por
Redação Bebidas e Afins
   

 


A inglesa Diageo, gigante do setor de bebidas e fabricante do uísque Johnnie Walker, quer tirar do mercado um primo pobre inconveniente, nascido em Minas Gerais: a cachaça João Andante. Criada por quatro amigos no último ano do ensino médio, em 2003, a pinga mineira vende cerca de 200 garrafas por mês no boca a boca e pela internet. Ainda assim, a Diageo entende que a marca – tradução meio manca de Johnnie Walker –, é plágio de uma de suas principais bebidas.

A gigante inglesa solicitou ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) que anule o registro concedido em fevereiro deste ano à João Andante, sua nova “rival”. A disputa com a multinacional tem tudo para ser mais um capítulo quixotesco na história dessa pinga mineira. Idealizada por inspiração de aulas de empreendedorismo, até hoje o negócio é um hobby para os donos, que usam o produto como cartão de visita profissional e social. Como para barganhar uma hora na agenda de um publicitário ocupado de São Paulo ou pedir o abono de uma falta na faculdade.

Nos primórdios da João Andante, o grupo que hoje está na casa dos 25 anos de idade, era tão amador que chegou a pensar em buscar a primeira encomenda, de três mil embalagens, com uma Blazer. Choveu e desistiram. Contrataram um caminhão para trazer tudo. Foi sorte. Quando a carga chegou, descobriram que eram 60 fardos. “Na Blazer caberiam só dois. Tivemos que alugar um galpão para armazenar”, diz Gabriel Silva, sócio responsável pela ideia da marca.

Não à toa, quando recebeu o primeiro comunicado da Diageo, em fevereiro, o empresário e seus sócios ficaram paralisados. Não sabiam nem quem era aquela companhia, que mandava retirar a marca do mercado em cinco dias, tudo escrito em juridiquês. “Mas não dava nem para ficar com raiva. O texto dizia que fabricavam Johnnie Walker, Guinnes, Smirnoff e mais um monte de coisas”, lembra Silva. “Se fossemos ficar bravos com a companhia, íamos ter que parar de beber.”

Passado o susto, chegaram à conclusão de que não haviam feito nada de errado. Encontraram um escritório especializado em propriedade intelectual, que aceitou o caso. “Nos disseram que, de cerca de seis mil contestações do tipo feitas por ano, o INPI acata pouco mais de duzentas”, afirma. Os planos agora são seguir em frente

Jeca Tatu, Don Quixote e Picasso

Em sua defesa, os fabricantes da João Andante dizem que, apesar do nome e do logo, um andarilho maltrapilho, toda a conceituação da marca da cachaça teve inspiração diferente. Na definição de Silva, João Andante é uma mistura de Jeca Tatu, Don Quixote e Picasso. Tudo misturado em bate-papos informais e reuniões do grupo com uma empresa júnior da Universidade Federal de Minas Gerais, em meados da década passada.

Na comparação dos logos, dizem os empresários, enquanto Jonnie Walker veste fraque, cartola e carrega uma bengala, João Andante usa chapéu, bota sete léguas e leva sobre o ombro um galho com uma trouxa de roupas amarrada na ponta. Na postura, Johnnie é altivo. João anda curvado, de capim na boca.

Para eles, os dois personagens tampouco frequentam os mesmos ambientes. Johnnie Walker é encontrado em supermercados, lojas de bebidas e free shops ao redor do mundo. João Andante só se compra pela internet ou pessoalmente. Para terminar, ao invés do lustre de milhões em investimentos em marketing, os mineiros investem é na divulgação da pinga em mídias sociais, como Twitter, Facebook, e no site na internet. No máximo uma feira de cachaças.

A Diageo, porém, entende a coisa de outra forma. A petição de nulidade do registro da marca faz referência a sites nos quais o personagem João Andante é descrito como “um primo do interior de Johnnie Walker, que imigrou para o Brasil durante a I Guerra” e, ao invés de uísque, resolveu fabricar cachaça. E que a pinga mineira espera roubar clientes do uísque, ficando a sua sombra.

O veredicto, quem vai dar, é o INPI. Até agora, porém, ao invés de conseguir o que queria, o que a Diageo fez foi jogar lenha na fogueira ao promover a João Andante indiretamente, num momento em que a empresa se prepara para dar um salto na produção.

Na segunda-feira, por exemplo, o pedido de nulidade do registro da marca foi tema de uma longa matéria no jornal "Estado de Minas". No ano que vem, ao invés de 200 garrafas para vender por mês, os fabricantes da cachaça já reservaram com produtores do interior de Minas quatro mil delas. A visibilidade gratuita deve contribuir para elevar a expectativa mensal de vendas, de 550 garrafas ao mês.

O volume equivale provavelmente ao consumo de Johnnie Walter em meia dúzia de animados bailes de formatura. Não faz cócegas na Diageo, dona de um faturamento anual equivalente a cerca de R$ 28 bilhões. Mas será suficiente para garantir a João Andante, cuja garrafa é vendida a R$ 40 reais, receita potencial de quase R$ 2 milhões a partir do próximo ano. Como base de comparação, neste, a média foi de R$ 8 mil por mês, ou R$ 96 mil ao ano.

Segundo o INPI, o pedido está em análise e não há previsão de quando sairá uma resposta definitiva. Até que isso aconteça, a marca está valendo. “A briga ainda é entre a Diageo é com o INPI”, diz Silva. “Se o INPI achar que estava errado ao nos dar o registro, aí sim vamos ver o que a gente faz”, diz o empresário, que assim como os outros sócios, tem outro emprego para viver. Uma solução, é certo, pode ser beber o estoque.



Procurada, a Diageo informou, por meio de sua assessoria de imprensa que "as ações adotadas contra os fabricantes da bebida 'João Andante' têm, por enquanto, apenas cunho administrativo e extrajudicial por conta da semelhança entre os sinais em discussão."

Para a fabricante britânica, a reputação que seu uísque atingiu junto ao consumidor resulta de anos de esforço de seus funcionários e de "contínuos e vultuosos investimentos". E que tentativas de associação indevida podem comprometer um longo trabalho de construção e consolidação da imagem de uma marca.

"As medidas tomadas pela companhia estão respaldadas pelo sistema de proteção dos direitos de propriedade industrial previstos na constituição federal, na Lei de Propriedade Industrial e nos tratados internacionais dos quais o Brasil faz parte", diz o texto.

Fonte: iG
 
 
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